sexta-feira, 18 de junho de 2010
morte e petite mort
Acordei com a notícia da morte do Saramago. Só li um livro dele, Ensaio Sobre a Cegueira, mas sinto como se conhecesse toda a sua obra. É um estranho sentimento de proximidade, empatia.
Há pouco passou na TV uma entrevista em que ele dizia não temer a morte, um tema recorrente em seus livros. Falou sobre a nossa dificuldade em falar sobre a morte, esquecemos dela e só lembramos que vamos morrer na velhice.
A cidade raramente nos estimula a pensar sobre a morte. Outdoors com pessoas simétricas de dentes brancos e olhos azuis oferecendo os mais variados produtos e ideais de felicidade expressam a estética dos corpos e a imposição de um desejo feliz.
Antes tudo isso fosse trocado por uma simples frase, em caixa alta, fonte de cor branca, fundo preto: você vai morrer.
Colocar a morte no centro da reflexão sobre a vida não é desejar a morte, ninguém (salvo raras exceções) ensaia para morrer. Acho que é uma forma de analisar o que estamos fazendo de nós mesmos. Saber morrer é ser fiel aos próprios desejos. Saber viver é atestar, com regozijo, tal fidelidade.
Ao mesmo tempo, pensar na morte é um mecanismo de desapego. Dos objetos que valorizamos, dos nossos hábitos, do nosso status e do nosso corpo.
Pensar na morte como um dos eventos mais importantes de nossas vidas é uma tentativa de encontro com nós mesmos (nós enquanto desejo) no infinito.
sábado, 27 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
cheiro de polônia
Hoje de manhã, não sei porque, nem de onde, senti um cheiro herbáceo misturado com cheiro de cigarro. Olor de árvore velha, de chá, verde-escuro, quase marrom. Pensei ser esse o cheiro da Polônia.
Ou evoquei alguma imagem de algum filme do Kieslowski, provavelmente o quinto do Decálogo, com aquela fotografia em tons de verde.
Apenas um palpite, talvez eu sinta o cheiro dessas imagens.
Ou evoquei alguma imagem de algum filme do Kieslowski, provavelmente o quinto do Decálogo, com aquela fotografia em tons de verde.
Apenas um palpite, talvez eu sinta o cheiro dessas imagens.
sábado, 13 de março de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
sobre o pertencimento
Este post é uma homenagem a um filme.
A partir de uma fase da minha vida comecei a não imaginar a minha vida sem ela, pensei se isso era bom ou não, mas, no final, vi que era bom - é o amor, é o amor... Et vous? Comment allez-vous? Amitiés... Depois de ver Son Nom de Venise Dans Calcutta Désert, e enquanto estava vendo, senti Marguerite dizendo-me... Concretude dura e indiferente, essa indiferença é o mapa da Índia... A certeza que é pré-discursiva, que é uma música, que é o olhar ele mesmo... Outro dia eu falava pra Viveca que Truffaut não me tocava tanto quanto, sei lá, Antonioni, mas Truffaut tem algo de nostálgico que não sei bem explicar... Morrer, dormir, talvez sonhar, para mim sonhar, dormir, talvez morrer. E a felicidade pode até ser uma idéia velha.
Fui vendo minhas anotações aleatoriamente antes de chegar no que seria esse post.
O fato é que as pessoas dão o sentido que querem às suas vidas, algumas não dão nenhum, ou sequer pensam nisso. Afinal, não tem sentido, constrói-se um.
Daí acho que surgem as tais experiências, a influência das formas narrativas na subjetividade. Se a subjetividade é fabricada, sei lá, posso pensar numa miríade de formas narrativas operando na construção das subjetividades contemporâneas. O modus operandi do marketing televisivo, por exemplo, expondo crianças a inúmeros comerciais por dia, insidiosas seduções por minuto, por segundo.Vitrines, vitrines.
Deixando o papo chato de lado, não dá pra reduzir tudo a isso, é claro.
Este post é uma homenagem a um filme.
Talvez porque hoje seja difícil pertencer a alguma coisa, ou a alguém. E é cada vez mais difícil o fomento dessa idéia.
Sei que ninguém pertence a ninguém. Mas, mesmo assim, sempre pensava em onde-está-a-pessoa-a-quem-pertenço. Essa pessoa que me é e eu a sou, como na frase da Clarice, tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser.
Pra mim, a vida não tem muito sentido se isso não acontecer, e, se não acontecesse, seria feliz por ter esperado.
O cinema e um punhado de escritores difusos, talvez seja daí que extraio alguma narrativa. Quando vi A Dupla Vida de Véronique pensei ter encontrado algo que me dissesse o que eu procurava.
Irène Jacob tocando uma árvore. Um plano simples, mas profundo.

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